Eu estava sentada na beira do sofá com meu corpo curvado para a mesinha que se encontrava na minha frente contendo um pedaço de espelho quebrado, vodka e um pedaço de papel enrolado. Em cima do espelho continha uma pequena quantia de magia, aquele pozinho branco que ao ser inalado faz sua dor sumir e te ajuda a relaxar seus músculos, era isso que eu precisava agora. Com o pedaço de papel enrolado fiz uma fileira fina daquele pó, virei o resto do liquido em meu copo e inalei tudo que havia em cima do espelho apertando meu nariz logo em seguida, era um truque que me ensinaram, da uma sensação mais alucinógena. Virei minha cabeça para trás e pude perceber agora os fogos de artifícios estourando em minha mente, comecei a rir e a ficar tonta. Com uma tentativa inútil de me levantar cambaleei até a raque da TV onde deixei cair um porta retrato com uma foto minha e dele, sentados em baixo de uma arvore quando adolescentes. Eu costumava me importar com as pessoas, corria atrás de quem eu amava. Isso me tornava uma psicopata? Pois então, essa sou eu. Passei meu polegar direito sobre a foto, começando pela imagem dele e depois em nossas mãos que estavam entrelaçadas. – Como você pôde fazer isso comigo? – Sussurrei deixando uma lagrima escorrer pelo meu rosto. –Como pôde? – Agora gritava comigo mesma, eu sempre fui bipolar e com o uso da droga não ajudava em nada. Antes que outra lagrima escapasse pelo meu olho dando inicio a uma onda de dor, uma raiva começou a crescer sobre meu peito e só assim tive forças para levantar e esmurrar a foto na parede várias vezes, vários pensamentos, várias veias sendo rasgadas pelo vidro, meu punho sangrava deixando o sangue escorrer pela parede e depois deixando a foto toda suja também, os cacos de vidro espalhados em mil pedacinhos no chão. Eu me sentei encostando na parede gelada, chorando, apertando minhas mãos contra meus olhos. – Como que eu pude fazer isso? – Eu estava delirando, mas consciente com o que estava se passando na minha volta. Vinte anos se passaram e eu tinha certeza que só amaria aquele homem na minha vida. Passaram-se outros namoros, mas eu não conseguia sentir nada, parece que todos meus sentimentos, tudo de bom que continha em mim teria ficado com ele, e meu coração também. Recolhi a foto amassada e a limpei, colocando de volta em cima da raque da TV apoiando-a no controle remoto já que o porta-retrato estaria todo quebrado. Pra entender eu teria que contar nossa história, desde o dia que agente se conheceu, foi quando eu descobrir que viver iria muito além de só respirar. ~ ~ As luzes daquele salão se alternavam entre azul, vermelho, amarelo, verde. Aposto que inventaram mais cores pois depois da minha quinta dose de tequila eu não podia mais confiar no que meus olhos estavam vendo. Mas como sempre consciente das coisas ruins que se passam em minha volta, pareciam mais fortes do que os pequenos milagres que acontecia de eu ainda estar viva. Resolvi então sair daquele bar. Era uma noite fria na rua e eu vestia meu velho jeans e minha jaqueta de couro preta predileta. Com a maquiagem borrada de chorar, caminhava de cabeça baixa deixando meus cabelos mais negros que a escuridão chicotear nas minhas costas. Coloquei minhas mãos no bolso da jaqueta e caminhei até o meio da rua parando e encarando os carros que vinham vindos. O farol abriu. Nada. Os carros começaram a se aproximar em velocidade na minha direção. Nada ainda. – Me faça sentir alguma coisa. – Gritei. Gritei junto com as buzinas que os motoristas impacientes davam ao ver uma otária parada no meio da rua. – Vamos. Eu não estou com medo. – Gritava contra os faróis que passam de raspão em mim me fazendo curvar o corpo pra frente para que o vento e a velocidade não me derrubassem. As escolhas que me trouxeram aqui aos poucos foram arrancando pedaços meus e espalhando pelo chão. Mas ninguém podia enxergá-los. – Eu quero sentir. - Gritando tanto que pensei que as veias do meu pescoço estourariam. Só sobrou meu conteúdo exterior. E era o que realmente importava. Para a maioria da sociedade. Exceto um. Meu sorriso se abriu e agora a imagem dele apareceu na minha frente. Com aquele sorriso brincalhão que eu amava. Há muito tempo atrás teve a sorte de me conhecer no meu melhor, no meu sorriso sincero de todos os dias. Os carros sumiram. E a rua ficou calma, me deitei ali mesmo e fechei meus olhos com força, relutando para não chorar. Essa rabugenta que sou hoje nem sempre foi assim, comecei até em acreditar em amor e alma gêmea. Não sou mais tola de cair nessa história novamente.
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